29/10/2009

E Um Ano Depois...

Um ano passou-se.
Exatamente no dia 29 de outubro de 2008,
deixei para trás uma vida repleta de sonhos, sonhos de paz,
sonhos de liberdade, sonhos de amor e outros
sonhares jamais realizados em sua plenitude.
Resolução dura, pesarosa, mas repleta de esperanças.

Hoje, um ano após ter decidido partir em o que
se poderia levianamente ser chamado de uma aventura,
pois eu e ivanete nos conhecemos pela internet,
não vivo a sonhar com paz, liberdade ou amor,
pois agora tenho tudo isso e mais que sempre sonhei,
na vida que levo ao lado de Ivanete. Mas,
só faltava uma coisa em nossos sonhos, que era
o de termos uma "casinha branca".


Faltava. Achamos nosso novo lar, tal qual
sonhávamos, pequeno, aconchegante, cercado de verde,
com a música dos pássaros a alegrar os nossos
dias, enchendo de magia nossos momentos.
Com uma antiga placa com os dizeres
Rancho Fundo, o último sonhar virou realidade.

Mas tudo tem seu preço.
Apesar de estar localizado nos arredores da cidade,
não teremos internet, seja por banda larga ou 3G, pois
as operadorsa de telefonia da região não disponibilizaram
o cabeamento e cobertura necessária para tal, em
nosso novo bairro. Portanto, por alguns meses,
eu e Ivanete estaremos "fora do ar" em nossos blogs,
canais do YouTube, Msn, etc., pois a opção
que nos resta, via satélite, está por hora fora
de nossas possibilidades financeiras.

Deixarei algumas postagens programadas para entrar
em datas futuras e procuraremos, de tempos em tempos,
estarmos em uma "lan house" ou "cyber café" para
"matarmos saudades" dos amigos virtuais ou reais e
dos muitos seguidores de nossos trabalhos.


Assim, hoje, 29 de outubro de 2009, dia de
nosso primeiro aniversário, partilhamos com vocês esta data
em que estamos felizes e realizados mas, com os nossos
corações já apertados pelas saudades que com certeza
sentiremos de todos vocês até nossa volta.
Beijos em seus corações.

betomelodia

video

01/10/2009

Partes de Uma Vida - A Dama de Vermelho







betomelodia




Sentados lado a lado, um casal almoçava
observando tudo ao redor.

A comida não era lá essas coisa, mas como
a fome era
muita, eles a saboreavam com
grande prazer.
Salão lotado. Vários níveis sociais
ali estavam,
solitários, mergulhados em seus
pensamentos e atentos
ao ato de, literalmente,
devorarem
o que nos pratos havia.

Algumas mesas à frente, no grande salão,
um já grisalho senhor acomodou-se ao lado
de outro que
calma e compassadamente almoçava.
Sem timidez
colocou a mão em sua boca, retirou a
dentadura e a guardou
no bolso da já surrada camisa,
começando a almoçar.

Após terminar, com insistência fazia sinais ao senhor
sentado ao seu lado, para que ele aceitasse
em seu prato
a carne que ele não conseguia comer.
Oferta que seu
vizinho ignorava.
Depois de muito tentar, demonstrando já sinais de
irritação, outro senhor que ocupava o lugar à frente
dos dois e que a tudo presenciava, avisou por
gestos que seu vizinho de mesa era cego. Então, ele
ostensivamente afastou seu prato, pegou sua
dentadura e colocando-a, retirou-se do salão.

Sobre uma outra mesa, com uma garrafa pet
de dois litros
cortada, um rapaz almoçava sôfregamente.
Terminando, levantou
e se dirigiu ao balcão onde
novamente foi servido.
Voltando à mesa, despejou tudo
o que havia no prato, na garrafa.
O ato se repetiu por três
vezes. Quando completa a garrafa,
enrolou-a em uma blusa suja
e apressado saiu do salão.



Mas o que mais chamou a atenção dos dois, marcou
o almoço
de uma forma surrealista. Com extrema elegância
no andar e no
vestir, expressão altiva e nobre, um
clássico chapéu
vermelho combinando com suas vestes
e acessórios,
uma senhora caminhava soberana
na direção deles.
Todos os olhares se dirigiram à ela.
Parando a meio caminho, sentou. Educadamente
colocou a bandeja à sua frente, retirou de sua bolsa
talheres e sua própria salada, arrumando tudo com
delicadeza e maestria.
O fato seria considerado normal se ela não
estivesse ela entre
pessoas humildes,
catadores de papéis e moradores de rua.

Eles se perguntavam por que ela estava ali.
Seria uma rica solitária ou uma alma decadente alienada
em
um mundo de recordações?

As pessoas entravam, se alimentavam, voltando
então à
realidade das ruas, para muitos, o lar.
O casal terminou sua refeição
e em agradecido silêncio,
sabedores que para eles toda aquela situação era

provísória, saíram. Embora ainda não soubessem como,
tinham esperança de
que mudariam a realidade daqueles
dias e num futuro próximo
voltariam ali, não mais com
um vale refeição gratuito, mas sim
podendo pagar o R$ 1,00,
preço cobrado pela refeição naquele
abençoado
Restaurante Popular.


edição de imagem: ivanete
autor do texto: betomelodia

23/11/2008

Partes de Uma Vida - Uma Aventura na Noite Fria...







betomelodia

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Um ato banal, gostoso...
Um bom sorvete. Aos poucos mordido,
bem devagar lambido, ou de ambas
as maneiras, ser saboreado emuma noite quente.
Mas não em se tratando de minha pessoa,
ainda mais na companhia de minha mulher.
Sempre buscamos aventuras e novas emoções
em tudo o que fazemos ou então...
elas é que nos procuram.

Noite. Meio da semana e nada para fazer.
Roupas confortáveis, vestidos para o que der
ou para o que vier. Nada veio. Ou melhor,
veio uma rápida mudança. Do tempo. Vento.
Vento frio. Mas não mudou nossa vontade
de tomar um sorvete. Resolvido!
E lá fomos nós tomar um sorvete...

Uma sorveteria bem na esquina de nosso
apartamento, era sempre uma tentação. Mesmo
em um dia de vento forte e frio. Pedido feito,
pago e bancos para nos deliciarmos na
calçada em frente. Lá fomos nós.

Um enorme sorvete, transbordando da
casquinha. Ou melhor, cascona.
Ao sairmos do pequeno espaço então lotado
da sorveteria, o vento frio havia aumentado
de intensidade e para proteger nossos sorvetes
que teimavam em derreter, escorrendo pelas
casquinhas, digo, casconas, demos as costas ao
vento. De frente para os passantes.

Sorvete derretendo mais rápido do que
conseguíamos consumir. Risos nervosos e
muitos pingos na calçada. Olhares muitos,
mixto de risos e censura. Dois adultos que não
sabiam tomar um sorvete... Acho que riam de
nossa agonia. Riam de nossas tentativas
para evitar que os rios de sorvete que já lambuzavam
nossas mãos, inundassem mais ainda a
calçada.

O vento aumentou. O frio também. Os pingos
teimavam em ir em direção aos nossos pés, roupas
e aos bancos em que estávamos. Ao levarmos
as casquinhas à boca, ou melhor, casconas,
agora irreconhecíveis de tanto sorvete que por elas
escorriam, nossos cotovelos se transformaram
em conta-gotas. Ridículamente hilária nossa
situação, que arrancava risos dos que por nós
passavam.

Fomos até o fim. Lambuzados como crianças.
Rindo. Felizes. À sós em nosso lambuzado mundo,
alheios à tudo. Abraços e beijos melados que,
tenho certeza, causavam inveja aos que por nós
passavam. Então, mãos dadas, banhados de sorvete,
encerramos a noite de aventura e nos dirigimos
ao nosso apartamento. Felizes.


20/09/2008

Partes de Uma Vida - Primeira Expedição...

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betomelodia

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Teclado à frente. Pensamento lá para trás,
bem paratrás em um mundo agora tão diferente e distante
Mãos inertes, o monitor estático, aguardando.
Impaciente a imagem do protetor de tela apareceu
livre, dançando, único movimento no ambiente
inerte, imerso em de certa forma palpáveis recordações
.


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Noite. Olhando pela janela de seu estúdio, observa
as nuvens tingidas de vermelho pelas luzes da cidade.
Parece estar em outro planeta. Céu vermelho é diferente
e mexe com a imaginação. Surrealista.

Guapimirim, Parada Modelo, Magé, Teresópolis,
nomes que sempre surgem em suas nostalgias,
lugares em que viveu, em que foi livre e que muitas
recordações, de aventuras e descobertas,
ele com carinho guarda e busca como apoio em sua
solidão, em seu abandono, lembranças que
marcaram sua vida para sempre.


a ponte sobre o rio paquequer
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Havia uma estrada de ferro que a serra vencia,
levando, trazendo passageiros e coisas
em seu ir e vir. Mas ele não chegou a ver sequer
os seus trilhos, retirados antes de sua
mudança para Parada Modelo. Deles, guias
seguros das locomotivas e vagões, só histórias
ouviu contarem e saudades nas narrativas dos
moradores locais, ele percebia. Não. ele não entendia
ainda o motivo da extinção de algo tão bom e
necessário, às pessoas que ali moravam.

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a mesma ponte, em sua lembrança
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Lhe disseram os mais velhos das belezas naturais
que pelas janelas dos vagões eram descortinadas,
sua construção, narrativas bonitas, poéticas
e interessantesdas obras que iniciadas em 1901,
tiveram sua conclusão em Teresópolis no
ano de 1908. Lamentaram a desativação
em 1957 e despertaram sua curiosidade sobre o local.

Resolveu subir a serra pelo antigo leito da ferrovia.
Seria uma bonita e diferente aventura.
Resolveu sair cedo, sozinho, com dois bons lanches e
um cantil com água fresca. Essa seria sua primeira
exploração desde que mudara para Parada Modelo,
às margens do Rio Guapimirim.

Ele recorda a aventura com um muitos detalhes,
a imponência das montanhas à sua direita
e o vazio dos abismos à sua esquerda, em uma
calma caminhada trilha acima por paisagens indescritíveis.
Ante tais maravilhas, pela primeira vez sentiu-se
ainda menino, muito pequeno ante a grandeza da Criação.
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a estrada por ele trilhada e o dedo de deus
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Ali, em meio ao silêncio e a uma brisa suave, sentou-se
e bebeu em grandes goles a beleza da paisagem.
Admirado ficou, imaginando a ousadia dos homens,
ao abrirem por tão acidentada região, caminho para uma
ferrovia, a engenhosidade para vencer grandes desafios,
a conquista da Natureza em nome do progresso.
Hoje, ao lembrar o abandono daquele belo trabalho, ele
pensa que deveria ter sido preservado como homenagem
aos seus idealizadores e construtores.

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o viaduto do garrafão
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Não completou todo o percurso, o cansaço e o medo
de atravessar a ponte sobra o Rio Paquequer
venceram e ele, pôs-se a descer , a fazer o caminho de volta
mas não sem sentir-se um verdadeiro desbravador,
a imaginar que a vida em um lugar tão bonito e diferente
haveria de ser muito boa e proveitosa.
E o foi.

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o aterro que resiste até hoje
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Ao final da aventura, levantou os olhos com respeito
à serra que havia acabado de visitar e
saudando o entardecer, prometeu a si novas e
emocionantes expedições...


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Recolheu o teclado, salvou seus arquivos, publicou
a "Primeira Expedição" desligando em seguida o
monitor. Levantou de sua poltrona, olhou para seu
pequeno mundo e apagando as luzes, apagou
a si e as suas memórias até a manhã seguinte...


betomelodia

15/09/2008

Luís Fernando Veríssimo: Sempre de Mãos Dadas Com a Literatura e a Música

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foto












luís
fernando
veríssimo



Todos conhecem Luis Fernando Ver!ssimo,
renomado autor de vários livros
dedicados à pessoas de todas as idades,
alguns adotados por diversas escolas
em todo o Brasil.

Mas além dos
poucos sabem que
Luis Fernando tem uma outra paixão
nas Artes,
a música, aliás sua primeira paixão.
Instrumentista, tem no saxofone o mesmo talento
que mostra em seus livros e ao tocar,
arrasa, surpreende com sua banda chamada
Quinteto Jazz 5.

Abaixo, Luis Fernando e sua banda,
tocando Samba de Verão de Marcos e
Paulo Sérgio Valle.
betomelodia


video

20/06/2008

Partes de Uma Vida - A Expedição

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betomelodia

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Na selva africana, o povoado em
que ele mantinha
sua base de operações parecia ter parado no tempo.
Nada se movia, o silêncio era total.
Um sol abrasador, a única coisa sentida
naquela tarde modorrenta, fazia com que a vida
parecesse irreal. Se algo não acontecesse
logo, acho que ele morreria de tédio
ou afogado no próprio suor.
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..." Se a temporada acabar e eu não conseguir um cliente,
não sei como pagarei minhas contas. "...

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Logo ao iniciar o negócio como guia de expedições,
teve que comprar todo o equipamento necessário
para substituir o que foi confiscado pelo
governo africano. Alegaram que os mesmos
haviam sido introduzidos ilegalmente no país e
assim, ele teve que providenciar os novos.
Sem dinheiro, em um país estranho, deu como garantia
seus veículos, um jeep e um ônibus, adaptado para abrigar
a todos enquanto durassem as expedições.
Mas, nada de clientes, nada.

Mas naquela mesma tarde, ele recebeu um telegrama
com uma notícia que o deixou aliviado.
Chegando do Brasil, Rio de Janeiro, dua cidade natal,
dois turistas iriam procurá-lo, pois precisavam
de guia e carregadores para uma expedição
até uma longínqua cidade, outrora liderada
por um grande imperador. A distância
era longa e o percurso pela densa selva, acidentado.
Mas enfim, trabalho, dinheiro para pagar os equipamentos!
Aventura! Uma grande aventura!

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E os preparativos começaram.
Uma semana se passou e no dia marcado,
os turistas desembarcaram no aeroporto.
Vôo como sempre, atrasado, bagagens misturadas e a
irritante demora para vistos e demais procedimentos legais
de entrada no país. Então. depois de algumas
"burocráticas" horas, mil recomendações e um breve
descanso, ficou decidido durante o jantar que,
a expedição partiria na manhã seguinte às seis horas,
pois a temporada de chuvas, aproximava-se.

Equipamentos, mochilas e armas em ordem, às seis
horas em ponto iniciaram a longa jornada.
A bússola indicava a direção através da
densa floresta em que teriam que abrir o próprio
caminho, onde a luz do sol quase não conseguia
penetrar. Fariam apenas duas paradas por dia:
a primeira para alimentação e um breve descanso
e a segunda para passarem a noite.

A primeira etapa do percurso transcorreu como
o programado. Cinco horas de caminhada
por mata fechada, atravessando pequenos rios,
que montanha abaixo jogavam suas águas, perigosas,
caudalosas, principalmente na estação das monções.
Após o almoço e o breve repouso, à caminho novamente.
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A subida em direção à cidade perdida era muito
íngreme, cansativa. Seus clientes, não acostumados
ao esforço, começaram a reclamar de calor,
cansaço e fome, mas ele avisou que precisavam chegar à base
da serra para passarem a noite. E continuaram pela
mata a dentro, até o lugar onde passariam a noite.
E que noite. Com que vontade desejavam dormir.

Na manhã seguinte, seis horas, já estavam prontos
para a etapa final, a subida da serra que
estava entre eles e o destino da expedição. Começaram
a subir e preocupado com o tempo muito carregado
de nuvens, reuniu o grupo, conversaram com
os carregadores e resolveram escalar um pequeno
rochedo para seguir rumo ao destino, cortanto caminho.

..." Puxa, que tempestade vai vir! Vai ser difícil levar todos
até lá em cima, mas é a única opção, o único abrigo. "...

À frente do grupo, com seu sócio à retaguarda, viu
que não ia ser fácil pois a pedra estava muito
escorregadia e seus clientes, assustados. Mas chegaram.
Mas o chefe dos carregadores, ao cuidar das cordas,
escorregou na pedra malhada e com limo e...
aconteceu... deixou-as cair paredão abaixo e quase
foi com elas. E agora? Todos, em silêncio, trocaram
olhares apreensivos. Estavam com muito medo
pois a chuva era na realidade uma forte tempestade,
e agora sem as cordas, não poderiam continuar a subida
ou tampouco descer, para voltarem.
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Assim, a brincadeira perdeu a graça, a aventura mais
uma vez, não estava dando certo. Mas tinha tudo
para dar certo! ..." merda de chuva! "... ele gritava, chutando
as mochilas, as pedras e a forte chuva...
..." bosta de chuva! E você tinha que deixar as cordas caírem! E agora? Como vamos sair daqui? "...
Seus primos, (os clientes), começaram a chorar
e seu melhor amigo, de muitas e muitas aventuras,
cabeça baixa, só pedia desculpas.

Bem, passaram aquela tarde e a noite na plataforma
do Morro Açú, vendo ao longe as luzes das cidades lá
em baixo, por entre a chuva. Molhados, com frio,
pavorados com a violência da tempestade,
sem saber como sairiam dali, choraram em coro...

Ele, mais velho, quatorze anos. Responsável por
seu amigo e primos nas "selvas africanas"... mas que
droga, só se metia em encrenca e tinha uma
enorme coleção de castigos por isso.

Ao clarear o dia, chuva passada, um lindo amanhecer,
talvez o mais bonito que ele já tinha visto e a
pergunta era: como sair dali sem as cordas para
subir ou descer? A resposta estava ao seu lado esquerdo:
a plataforma continuava em direção à Teresópolis
e eles estavam completamente desorientados porque
estavam a pouca distância da estrada Rio-Teresópolis, na
serra, não tão longe de Parada Modêlo, de onde partiram...

Eles não estavam no Morro Açú! Mas não disse nada.
Ficou quieto e juntando as coisas que sobraram,
voltaram ainda molhados e bem sujos, sem as cordas
que ele havia comprado deixando a sua bicicleta,
o "jeep", como garantia de pagamento.
Adeus bicicleta... mais uma surra...

Sua coleção de castigos aumentou, seus primos também
tiveram os seus, assim como seu amigo, o dele. Mas
valeu a pena e se não tivesse invertido o mostrador da
bússola, quando ele a desmontou para ver como era dentro,
talvez tivessem chegado até Petrópolis.

..." Na próxima vez, vou levar uma bússola melhor.
E mais corda! Tá legal, tá legal... não vou mais
mexer na porcaria da bússola "...


betomelodia

20/04/2008

Luís Fernando Ver!ssimo

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Desabafos
de um bom marido.

Luis Fernando Veríssimo



Minha esposa e eu temos o segredo
pra fazer um casamento durar:
duas vezes por semana, vamos a um ótimo restaurante,
com uma comida gostosa, uma boa bebida
e um bom companheirismo. Ela vai às terças-feiras,
e eu às quintas.

Nós também dormimos em camas separadas.
A dela é em Fortaleza e a minha em São Paulo.
Eu levo minha esposa a todos os lugares,
mas ela sempre acha o caminho de volta.
Perguntei a ela onde ela gostaria de ir no nosso
aniversário de casamento.
"Em algum lugar que eu não tenha ido há muito tempo!"
ela disse. Então eu sugeri a cozinha.

Nós sempre andamos de mãos dadas.
Se eu soltar, ela vai às compras.
Ela tem um liquidificador elétrico, uma torradeira elétrica
e uma máquina de fazer pão elétrica. Então ela disse:
"Nós temos muitos aparelhos,
mas não temos lugar pra sentar".
Daí, comprei pra ela uma cadeira elétrica.

Lembrem-se, o casamento é a causa número um
para o divórcio. Estatísticamente, 100 % dos divórcios
começam com o casamento. Eu me casei com a "Sra. Certa".
Só não sabia que o primeiro nome dela era "Sempre".

Já faz 18 meses que nãalo com minha esposa.
É que não gosto de interrompê-la. Mas
tenho que admitir, a nossa última briga foi culpa minha.
Ela perguntou: "O que tem na TV?" E eu disse "Poeira".

No começo Deus criou o mundo e descansou.
Então, Ele criou o homem e descansou.
Depois, criou a mulher. Desde então, nem Deus,
nem o homem, nem mundo tiveram mais descanso.

Quando o nosso cortador de grama quebrou, minha mulher
ficava sempre me dando a entender que eu deveria consertá-lo.
Mas eu sempre acabava tendo outra coisa para cuidar antes:
o caminhão, o carro, a pesca,
sempre alguma coisa mais importante para mim.

Finalmente ela pensou num jeito esperto de me convencer.
Certo dia, ao chegar em casa, encontrei-a sentada
na grama alta, ocupada em podá-la com uma
tesourinha de costura. Eu olhei em silêncio por um tempo,
me emocionei bastante e depois entrei em casa.
Em alguns minutos eu voltei com sua escova de dentes
e lhe entreguei. "Quando você terminar de cortar a grama",
eu disse, "você pode também varrer a calçada."

Depois disso não me lembro de mais nada.
Os médicos dizem que eu voltarei a andar, mas mancarei
pelo resto da vida."O casamento é uma relação
entre duas pessoas na qual uma está sempre certa
e a outra é...o marido..."




Postagem enviada por
artesadaspalavras.blogspot.com

20/03/2008

Partes de Uma Vida - O Dia do Médico...







betomelodia

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"...onde você estava?", pergunta a mãe à menininha.
... "no quarto, brincando de médico com o Joãozinho"...
... "
de médico ?" A mãe dá um grito e um salto da cadeira.
... "
médico do SUS, mãe... ele nem me atendeu!
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Tédio... era um tédio total no hospital em que ele trabalhava. Poucos pacientes para sua especialidade, poucos exames, poucas consultas... um tédio.
"Parece que a saúde dos brasileiros está melhorando,"... pensava ele ao arrumar seus instrumentos em sua maleta... "pois cada vez mais tempo tenho para arrumar e arrumar e arrumar minhas coisas."


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Inteligente, havia concluído a Faculdade de Medicina
ainda bem jovem e gostava do que fazia pelo
bem de seus pacientes. Sentia-se realizado e satisfeito
por ter estudado e sobretudo por poder colocar em prática
o que aprendera na faculdade. Adorava ver expressão
de surpresa , até de susto em seus rostos, ao examinar
de maneira meticulosa e calma, seus corpos em
busca de um diagnóstico perfeito. Sim, ele era um
profissional bem sucedido.

Na pequena cidade onde clinicava, seus conhecimentos
e diagnósticos se tornaram bastante populares,
sendo aceitos e comentados por todos. Os muitos
elogios sobre sua capacidade o faziam feliz, apesar
de ficar preocupado com tão repentina fama, com
tudo o que era dito a seu respeito e principalmente
pela inveja de seus colegas, não tão bem
falados como ele o era. Tinha que tomar certas
atitudes para que seus métodos de trabalho
não saíssem de seu hospital, de seu consultório.

Começou a pedir sigilo aos seus pacientes, alegando
que assim como ele guardava segredo sobre as
causas prováveis das doenças adquiridas por eles,
deveriam guardar silêncio sobre os métodos
por ele aplicados, para que comentários maldosos
não mais circulassem.

"Então, em uma manhã de sol, apareceu em meu consultório
uma das mais lindas 'Obras da Criação'.
Era nova na cidade e com seu
olhar inteligente me hipnotizou.
Imediatamente, ardentemente, a
desejei para mim. Só para mim."

Se recompos. Iniciou a consulta.
Após ouvi-la, pediu que ela
se despisse e deitasse na cama de exames,
o que ela com certa relutância e
com timidez, o fez. De costas, ainda sem olhar
para ela, ia respondendo às suas perguntas, ansioso.
E com o coração batendo forte, virou-se.

Ao ver aquele corpo nu deitado na cama,
suas mãos tremiam, seu coração
parecia que ia saltar de seu peito e ele
começou a examinar delicadamente
aquele ser perfeito. E tocando
aquela linda mulher, apaixonado ficou.

Percorrendo pequenas "elevações" em
seu tenro peito e "vales" ainda inexplorados
em seu macio e alvo quadril,
mas se detendo mais nos vales, ele não
sabia o que devia fazer e sua "paciente" sentia
cócegas, ria e tirava sua concentração do
exame agora não tão clínico, mas delicioso...

Beijou-a na boca... ela correspondeu.
Então em um ato de coragem começou a se despir,
lentamente começou a colocar seu
corpo ao lado do dela. Primeiro uma perna,
a outra logo em seguida e esperou para ver o
que ela iria fazer. Ela o puxou para perto.
O... "aquilo" dele, estava enorme e ela colocou
a sua mão "nele"... ele nunca esqueceu da
suavidade de sua mão e com um pouco mais
de coragem, aos poucos deitou-se sobre ela.










A porta de seu quarto abriu com um estrondo.
Foi como se eles tivessem despencado de milhares
de metros de altura, do céu para o inferno.
Suas mães entraram no quarto de chinelo em punho,
desferindo chineladas à torto e à direito,
nos dois jovens aprendizes da arte de amar.

Bem, não mais podiam brincar de médico.
O hospital e o consultário foram fechados por
seus pais.
"Será que tudo quanto é brincadeira eles vão proibir?",
se perguntavam.Foram proibidos até de se verem, apesar
de não serem mais crianças, pois tinham
a mesma idade, doze anos, que absurdo!
Mas sempre davam um jeitinho para continuarem
as agora, aulas de anatomia, aulas que
pelo menos por ele, jamais serão esquecidas.
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20/01/2008

Partes de Uma Vida - A Batalha Final



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..." é, assim a sela está bem melhor.
Já não dói tanto cavalgar em arriscadas missões.
Foi bom mandar consertá-la. "...

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Os indígenas não mais estavam apenas curiosos ou contemplativos a observarem a invasão de suas terras pelo homem branco. Planejavam algo. Passaram a fazer rápidas incursões, cada vez mais ousadas aos novos povoados e assim, as missões de patrulhas da cavalaria sucediam-se práticamente sem pausas. Imóveis, no topo das colinas, suas compridas lanças apoiadas no solo como marcos a delimitar seu território, em silêncio eles nos vigiavam, apenas nos vigiavam.
Os brancos invadiram suas terras destruindo as florestas, porque era necessário madeira para suas casas. Afugentaram sua caça matando à tiros os búfalos, pois a carne era essencial para o sustento dos pioneiros, que continuavam a chegar em grandes caravanas, e devastando cada vez mais as terras de seus ancestrais. Então, as pequenas incursões se transformaram em pequenos e isolados ataques. Eram avisos do que estava por vir se os brancos não partissem de suas terras.
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O Forte estava bem localizado, bem construído e
apesar de estar em uma depressão em semi-círculo
era seguroe seria defendido até a morte pelos valentes soldados.
Ao vigiarem as colina que os cercavam ao norte e ao leste,
os soldados viam que a movimentação dos índios
aumentava e cada vez nais perto do forte eles chegavam.
Sondavam as defesas dos brancos,
calculavam suas forças.
Certamente planejavam um ataque.

A ligação com as tropas estacionadas aosul do Forte,
seria a única opção em caso de retirada,
uma vez que à oeste ficavam as terras altas,
os campos de caça dos nativos.
Lentamente o cerco ao "Forte Alcântara" foi se fechando.
Nas noites que se sucediam tensas, o som de
tambores era ouvido ininterruptamente e vultos
eram vistos por entre arbustos ao redor de nossa posição.
E assim, ele decidiu reunir seus oficiais para resolveram
o que deveria ser feito para conter a ameaça de
um ataque dos índios, visto que o Estado Maior
havia deixado tal decisão por sua conta.

Em uma manhã, um grande número de tendas havia
aparecido no alto da colina situada à leste, contra o sol.
Nas colinas ao norte, grande era o número de guerreiros
se unindo em silêncio ao grupo, em uma lenta
marcha em direção ao grande acampamento.
Não havia mais dúvida, em breve seriam atacados.
Era só uma questão de tempo, muito pouco tempo...
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Decisão tomada. Pediu o parecer de seus oficiais.
Aprovada por todos, ficou decidido que fariam um
ataque surpresa ao entardecer do dia seguinte com
todos os soldados e os reforços que estavam a caminho.
Iniciaram os preparativos para o ataque imediatamente:
uniformes, armas, munições, sabres e montarias
foram inspecionados e... estavam prontos para o combate!
Mas, logo depois, naquela mesma manhã em que foi
decidido o ataque, chegou a informação de que o
líder das várias nações indígenas havia ficado
só no acampamento, apenas com uns poucos
índios para sua proteção. Os guerreiros que iriam
participar da batalha contra os brancos,
estavam reunidos em um planalto atrás das
colinas ao norte, em preparativos para a guerra.
Alí estava uma grande chance de vencer
sem que ocorressem baixas...

Os oficiais no Forte receberam instruções
de como agir, caso algo desse errado e então, com
um pequeno grupo de bem treinados soldados
sob o seu comando direto, ele partiu para sua
arriscada missão pensando:
..." A sela ficou ótima. "...

Fácil, muito fácil. O excelente preparo de seus comandados e o elemento surpresa
surtiram o efeito desejado. Conseguiram capturar
o grande chefe "Pena de Urubu Branco" sem que um
único tiro fosse disparado e sem um confronto com os
índios que o protegiam. Simplesmente se renderam.
Amarraram os guardas do chefe uns aos outros, pelos pés
e os colocaram sob uma grande árvore. A seguir,
amarraram o grande chefe à parede de sua tenda, de
frente para a entrada do acampamento e aguardaram.

Quando os guerreiros voltaram do campo e viram a cena,
não se deram por vencidos. Sob as ordens do grande
chefe que, mesmo dominado os incitava aos berros à luta,
partiram em direção aos soldados com seus gritos
de guerra a ressoarem pelo acampamento.

Bem, já começava a escurecer e ele havia acendido
algumas tochas que encontrara. Segurando uma em sua
mão esquerda e brandindo sua arma com a direita,
ameaçou por fogo na tenda onde o grande chefe estava
amarrado se não cessassem o ataque. Os
índios pararam e fixaram os olhos na tocha ao ouvirem:
..." Parem o ataque ou seu chefe morre queimado! "...


Que ele lembre, foram as últimas palavras por ele ditas,
ficando surpreso com a reação de todos os meninos,
"guerreiros" e "soldados: silêncio total, imóveis, olhos
arregalados de pavor olhando em direção em que o
grande chefe "Pena de Urubu Branco" estava amarrado,
talvez... esperando uma nova ordem sua? Que nada!
Aconteceu que na empolgação de seus doze anos, ao
apontar com a tocha para a cabana, encostou-a
na parede de palha e ela... pegou fogo!
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E agora? O fogo avançava rápido...
ficaram assustados com o calor, muito assustados.
Corriam de um lado para outro, sem saber ao certo
o que fazer. Então, os "valentes" soldados e índios lembraram
do grande chefe "Pena de Urubu Branco" que ainda
amarrado à parede em chamas chorava e aos gritos pedia
por socorro. A bem da verdade, a essa altura da "brincadeira",
todos os meninos estavam aos prantos e gritavam:
..." Fogo! Socorro! Alguém nos ajude! "...

Alguns meninos correram em direção às suas casas
para buscar ajuda ou... para se esconder...
Mas ele e outros meninos conseguiram soltar o grande
chefe, todo urinado e levemente "chamuscado"
pelas altas chamas. Em seguida, correram para suas
casas em silêncio na tentativa de escapar aos castigos e
surras que certamente viriam. Mas a retirada foi notada:
a intensa fumaçado fogo ao consumir a cabana em
que eram guardadas ferramentas, madeiras e outros
materiais de construção, atraiu a atençao
dos moradores das casas dos funcionários da
fábrica de papel. Foram vistos , sim.
Para resumir, em minutos a confusão aumentou tanto,
que até a diretoria da indústria ficou a par do acontecido.

O resultado? Algumas surras, muitos castigos e a proibição
de brincadeiras de "guerra" ou de "índios e soldados".
Mas a "batalha", que ficou lembrada como
"A Batalha Final" , serviu para unir ainda mais os
"bravos guerreiros" e os "intrépidos soldados", pois
entre eles os comentários e detalhes sobre ela,
renderam mese e meses de boas risadas.
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" Mas ainda bem que não proibiram as brincadeiras
de Médico ou de Tarzan.

Peraí: sabe aquela menininha linda
e gostosinha, a filha do contra-mestre?
Vou chamar ela de novo para nós... depois eu conto".

betomelodia

20/12/2007

Partes de Uma Vida - O Rally Serrano







betomelodia

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Nos boxes os preparativos das equipes
para o Rally Serrano se aproximavam do final.
Mecânicos e pilotos ultimavam os acertos para
que as máquinas rendessem o máximo na prova...
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Tudo foi muito rápido.
Passados apenas alguns meses de seu
ingresso no incrível mundo dos rallys como piloto
de testes, ele já ia participar como titular da
mais importante prova da temporada, estreando
um carro novo em folha.
A pista em que seria realizada a prova não era de asfalto
e sim de concreto, pavimento antigo que formado por
grandes placas, tinha as juntas de dilatação preenchidas
com asfalto, o que forçava muito a suspensão dos carros e
tinha a agravante de chegar a comprometer a dirigibilidade.
Mas ele e seus mecânicos haviam reforçado o conjunto
suspensão/direção de modo satisfatório, pois nos
testes ficou comprovada a robustez de toda a suspensão.




A prova. Realizada na madrugada de
uma quarta-feira, somaria pontos, lógico,
na temporada de '62. Como passou a fazer
antes de cada corrida, no dia anterior à prova checou o
pavimento, as tomadas de curva, os pontos críticos
do percurso e chamou a atenção de todos os participantes
para a péssima condição do preenchimento das juntas
de dilatação, algumas muito altas e outras até
inexistentes. Em um trecho de alta velocidade havia ainda
um outro problema: a manutenção em uma das placas
que antecedia uma curva foi feita com um asfalto péssimo,
que mais parecia um "angú de caroço"
obstáculos que com certeza seriam
superados por ele e seu novo carro.




Uma hora. Madrugada. Foi acordado por sua equipe. Havia
descansado por três horas e estava se sentindo confiante na
vitória, pois na polle, ia sair no traçado certo para
a primeira curva. Ao ir para a linha de largada,
começou a chover.
... "Bom, são ossos do ofício." ... pensou ele.
Reviu com cuidado os pontos em que precisaria usar toda a
sua técnica de piloto, para não perder segundos preciosos.
Chegou ao carro e notou que vestia jeans e camiseta.
Estava frio, a chuva havia passado mas
uma fina garôa caía incessantemente.




Na linha de largada. Como a pista era muito ruim os
solavancos seriam inevitáveis e o assento do piloto era
muito duro. Franzino e sem"recheio", sem bunda mesmo,
ia levar uma baita surra. Teve então uma idéia: apesar
do frio e da garôa tirou a camiseta e a enrolou tal
um turbante, tentando tornar o assento mais macio.
... "É, eu não tenho bunda mesmo."... pensou ele.
Ele precisava de mais alguma coisa para diminuir os
solavancos e assim, tirou a calça e a enrolou também.
... "Agora sim! Minha bunda vai aguentar!" ...
Então, só de cueca, tremendo de frio, ficou no carro,
aguardando. Não demorou muito e ...




O inesperado. Não estava nos planos e ninguém imaginou...
Mas aconteceu: dois carros da polícia rodoviária
fecharam a estrada e deles desceram quatro policiais que
vociferavam: ... "O que está acontecendo aqui? Vocês sabem que
horas são? Vocês deviam estar na cama! E você aí só de
cueca: quer pegar uma pneumonia? Todos já para os
carros! Vão todos para a delegacia." ... Foi tudo muito rápido...
Quando deu por si, ele lembrou que suas roupas e
sapatos haviam ficado no carrinho de rolemã e começou
a gritar para os policiais:
..."Pára! Minhas roupas ficaram lá! Volta! Tô com frio!"...
Mas os policiais não se importaram com seus
gritos e levaram todos em "cana". Depois de muitas
explicações, de muitos sermões, foram levados para
suas casas. Ainda bem que ele morava em um
quarto de pensão. Os policiais o deixaram na entrada e
ele, só de cueca, entrou de mansinho, sem que
ninguém o visse, pois eram quatro horas da manhã e
todos ainda dormiam.




Resumindo. "Preso" aos quinze anos. Sem estrear o
carrinho de rolemã , sem suas roupas e sapato, ficou com
uma baita gripe por mais de uma semana. Mas ele
e seus companheiros não desistiriam. Iriam continuar o
campeonato. Iriam provar que mesmo perseguidos
pelos inimigos, venceriam os reveses da história e ...




... "Que sela dura! Preciso dar um jeito nisso." ...
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20/11/2007

Classificados Através da História VI

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Classificados
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Casamento. Homem só, boa aparência,
situação estável. Procura moça para ser companheira
pelo resto da vida dela.
Procurar Barba Azul.

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Torro tudo.
E toco cítara. Tratar com
Nero, em Roma.

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(Extraído de: O Classificado através da História, de Luis Fernando Veríssimo)

20/10/2007

Partes de Uma Vida - A Liberdade

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Quando participava ou não, quando opinava ou não, quando calava ou não, sempre surgiam críticas que geravam controvérsias sobre suas atitudes, nunca importando se certo ou errado ele estava. Aprendeu muito com isso. Suas palavras nunca eram levadas em consideração e assim, com o tempo foi perdendo o interesse por eles. Como cantou Rita Lee em sua música, sentia-se um autêntico ovelha negra.

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ovelha negra
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Primogênito. É muito raro um ser menosprezado
pela família. Ele o foi e sempre sentiu a sensação
de ser um estorvo em seu meio. Mas, mesmo
sendo uma dessas raridades, manteve-se autêntico entre
falsidades e jogos de interesses, sem assumir posturas ou
atitudes que, de acordo com a ocasião ou suas vontades,
pudessem demonstrar falta de caráter.
Ele os queria bem, pois eram sua família. Três irmãs
tratadas com muito carinho e educação. Ele, criado ao léu
apesar de aparentar ter tido uma boa educação em um
saudável e feliz lar. Mas seus lares foram as casas
de tios e outros parentes, às quais era "despachado"
de tempos em tempos. Ao tentar fazer parte desses lares,
absorveu a educação de primos e primas tiveram,
moldando aos poucos seu caráter sem compreender
os motivos que o afastavam de sua família.
Então, aos quatorze anos, resolveu sair de casa,
resolução aprovada por unanimidade pela família, indo
morar, estudar e trabalhar em uma cidade próxima,
Teresópolis, longe, bem no alto da serra... sózinho.
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teresópolis---
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Mas pera aí... Estamos sendo muito injustos com sua família nesta narrativa. Em São Paulo, capital, ele foi gerente garal de uma rede de lojas de departamentos. Em São Paulo, interior, foi um bem sucedido empresário, fabricando e comercializando móveis rústicos, ocasião em que "carregava nas costas" irmãs e cunhados então desempregados, cunhados que foram admitidos como sócios de fato em suas empresas. É, ele foi muito rico e tinha então uma família que go$tava muito, ma$ muito me$mo dele, ora! É mas, pararam de gostar. Ele percebeu que além de ser usado por todos, também estava sendo roubado por seus "$ócio$", que sequer integralizaram um centavo de suas cotas de capital. Críticas violentas contra... ele! Alvejado e pasmo ante as várias versões e tentativas de justificarem os fatos, foi bem mais criticado por seus pais, ao mandar os "$ócio$" às favas."...
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$ociedade?---

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Auto-sustento. Vamos deixar os comentários para vocês
e voltar a falar da grande aventura de seus quatorze anos:
morar sózinho em uma cidade turística, serrana,
maravilhosa como é Teresópolis.
Sem dinheiro. Mas alugou uma cama em um quarto
de pensão, ocupado por mais três rapazes. Bom, já tinha
onde dormir e guardar seus poucos pertences, bem
melhor que atrás do armário do quarto de costura da casa
de seus pais. É isso mesmo: sua cama ficava entre
a parede e o fundo do guarda roupa, e no quarto de costuras...
No segundo dia saiu à procura de trabalho e conseguiu.
Foi em uma fábrica de sacos de papel para alimentos,
onde tornou-se o "responsável" por abastecer a máquina
com as bobinas de papel pardo. As bobinas eram
grandes, muito pesadas para seu corpo franzino.
Agora, a comida. Depois de dois dias de fome,
em um restaurante conseguiu um trabalho noturno,
à partir das vinte e três horas, que era o de
lavar as louças e deixar a cozinha "brilhando" para
o dia seguinte. O salário? Comida! Quatro refeições por dia!
Os estudos? Das dezenove às vinte duas e trinta.
Então, tudo acertado em três dias e era só tocar a vida
naquele novo mundo só seu.
Naquela noite, chorou em silêncio a falta dos seus...

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os pratos---
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A vida em Teresópolis. Muito aprendeu.
E gostou do que aprendeu, conseguindo boas amizades,
que sempre ao seu lado estavam nos momentos
difíceis. Fiéis companheiros das muitas aventuras que
em outras crônicas narrarei. Acordava bem cêdo,ia para
o trabalho e à noite o colégio e o restaurante.
Os fins de semana eram reservados para as aventuras
e assim não tinha tempo nem mais vontade de
pensar em sua família. Após mais ou menos quatro meses,
mudou de emprego indo trabalhar em uma revenda de
carros da hoje extinta marca Vemag. Deu adeus
à fábrica de sacos de papel e ao serviço
que na verdade "era um saco..."

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o vemag---

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De volta ao Rio de Janeiro. Depois de viver por volta de dezoito meses esta bem sucedida liberdade, seus pais mudaram-se de Parada Modêlo, município de Magé, para o bairro de Inhaúma, na Cidade Maravilhosa, levando-o com eles. Foi obrigado a ir, pois ainda ia completar seus dezoito anos,
deixando para trás a tão duramente conquistada liberdade e suas amizades. Mas essa experiência foi positiva na formação de seu caráter. Até hoje, quando em dificuldades, ele recorre ao que sózinho aprendeu aos quatorze anos, lutando por seu sustento e sobrevivência. Então, em silêncio ele chorou pela primeira vez, a perda da liberdad
e.

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a lágrima pela perda...
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20/09/2007

Partes de Uma Vida - A Decepção

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betomelodia



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Sentado em uma forquilha,
ele cismava e analisava a vida,
do alto de seus dez anos
e do alto do abacateiro...

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"Já sou grande. Cresci bastante porque como bastante.
Quer dizer, como mais ou menos porque já sou bem forte.
Os mocinhos e os bandidos dos filmes "fazem", então
por que eu não posso "fazer" também?
Mas se eu fizer, não posso deixar ninguém ver ..."
---
A década de cincoenta foi palco para sua infância.
O Rio de Janeiro era uma cidade onde um
menino de dez anos podia brincar em suas ruas
sem perigo de seqüestros, balas perdidas,
assaltos e outras coisas mais, que hoje
são o tormento dos cariocas. Naqueles tempos
as preocupações eram outras...
---
Observador atento, buscava seguir os exemplos
de seus heróis nos filmes, tais como
Roy Rogers, Zorro, Flash Gordon, Fantasma e outros
mais, inclusive Jerry Lewis em suas engraçadas
comédias. O poder de sedução que eles
tinham ele os queria ter. Mas era óbvio que para
isso, ele teria que "fazer" aquilo que eles "faziam".
---
Os cartazes espalhados pelas ruas da cidade e
as propagandas nos bondes, aumentavam
cada vez mais sua vontade de "fazer". Reuniu os
seus amigos e trocaram idéias sobre qual
seria a melhor maneira de "fazer"
aquilo e propôs a eles que todos começassem a
treinar para que impressionassem as meninas
quando fossem namorá-las.
---
"Então tá combinado: vamos para casa
treinar, mas não esqueçam que ninguém pode ver.
Acho que no banheiro é mais seguro."

---
Até que não era difícil "fazer pois já haviam visto
muitos filmes. Cansava um pouco, mas era gostoso.
O treinamento causava muito prazer, só
em pensar como seria "fazer" de verdade, pois essa
nova experiência com certeza deixaria as suas
namoradas com desejo de "fazer", tal como as
heroínas dos filmes. A pose, o jeito de mover o corpo
e as mãos era essencial e no início, exigia muita
concentração para atingir o objetivo.
Ele estava excitado de novo...
---
---
" Mais uns dias e é meu aniversário. Onze anos, onze!
Preciso pensar em alguém que me diga como
conseguir para "fazer" e impressionar as meninas. Pais,
nem pensar! Tios, tias, avós e avôs também não.
Mas pera aí... tem aquela tia
que tenho certeza vai me ajudar! "
---
No fim de semana antes de seu aniversário,
sua tia veio visitá-los. Ele conseguiu um jeito de
ficar à sós com ela e bem escondido de todos,
contou-lhe seus planos pedindo que ela o ajudasse
guardando segrêdo. Explicou que a vontade que
tinha de "fazer" era muita e que o treinamento
foi muito bem sucedido. Ele tinha certeza que
impressionaria muito as namoradas ao "fazer".
Sua tia prometeu ajudá-lo e que guardaria segrêdo.
Viria à sua festa e seu pedido atendido, seria
o seu presente. Satisfeito com a promessa, sempre
que podia treinava com mais intensidade os
movimentos da mão e do corpo para "fazer" bem e
deixar as meninas mais apaixonadas,
igual seus heróis o faziam.
---
Dia de seu aniversário. Ansioso esperava pela tia.
Todos chegavam com presentes,
abraços e beijinhos (argh!), menos sua tia. Foi a última
a chegar, quase no final da festa. Ao ver a
ansiedade dele, ela dirigiu-se ao centro da sala,
pediu a atenção de todos e começou a falar:
---
"Você hoje faz onze anos, já é um homenzinho.
E como você me pediu e eu prometi, trouxe
o que você queria ganhar. Agora você vai
finalmente poder "fazer" e impressionar as meninas."
---
Rápidamente, pegou seu presente, rasgando
trêmulo o papel,
coração aos pulos, já pensando
em "fazer" o que seus heróis faziam. Mas, a decepção...
... "Assim não vale! São de chocolate!" ...
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E foi para seu quarto, sem agradecer e aos
prantos, para curtir sua grande decepção...
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autor do texto: betomelodia

20/08/2007

Classificados Através da História V

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Classificados

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Orgão. Compro qualquer um.
À vista.
Também audição, sistema linfático, etc.
Tratar com Dr. Frankstein no castelo.

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Cabeças Compro para coleção.
Tenho as de João Batista, Maria Antonieta
e todo o bando de Lampião.
Tratar com Herodes. Roma.



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(Extraído de: O Classificado Através da História. de Luís Fernando Veríssimo)

20/07/2007

Partes de Uma Vida - A Namorada

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betomelodia


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"A diligência avançava em alta velocidade, levantando nuvens de poeira. As três parelhas de fortes cavalos lutavam para manter distância dos bandidos na esperança de escapar com o ouro do banco. Mas ele, o chefe do bando, montado em seu negro puro-sangue já estava ao lado do cocheiro, pronto para saltar e tomar as rédeas das mãos do apavorado cocheiro. Os passageiros assustados, se encolhiam nos bancos."

" Não, já cansei dessa brincadeira.
Também já cansei de brincar de "índio",
de "piloto de avião", de "caçada na África",
de "guerra" e outras mais. Todas ficaram sem graça."

É, aos poucos a infância vai ficando para trás e novos sonhos, novos medos, novas ansiedades e novos "brinquedos" começam a ser desvendados e explorados.

" Será que minha calça tá legal?
E o meu cabelo? Tá bem penteado?
Será que ela olhou para mim? "

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Infância. Bons tempos aqueles em sua cidade natal,
Rio de Janeiro, lá no bairro da Tijuca.
Aquelas "peladas" nas tardes, tendo como campo a

Rua Delgado de Carvalho e como "gol's",
paralelepípedos... o cinema ao ar livre nas noites
quentes e estreladas... uma enorme tela de
lençóis em um edifício e o projetor em um outro, eram
divertidos encontros dos moradores.
Nas manhãs? Escola, lógico...
A brincadeira preferida dele e de todos os meninos
era a de andarem o mais rápido possível sobre os muros
que separavam os edifícios, brincadeira considerada
como prova de coragem e habilidade. Proezas que nunca
tiveram consequências mais graves que arranhões
e orgulhos feridos.

Houve um tempo de racionamento de energia elétrica,
com "black-out's" noturnos em rodízio por todos
os bairros. Quando o racionamento, que durava duas
horas era feito, nada havia a fazer. Mas na escuridão eles
tiveram uma grande idéia e a puseram em prática:
conseguiram algumas lanternas e palitos para dentes
em suas casas e assim que o corte começava,
ele e seus amigos se dirigiam aos edifícios e colocavam
palitos nos interruptores das campainhas,
os mantendo acionados. Quando a energia voltava,
era uma verdadeira "sinfonia".


Novos interesses. Chega um momento em que,
como já disse acima, as brincadeiras começam
a perder a graça e a vontade de ter uma namorada
deixa de ser apenas uma vontade, se transformando em
um forte desejo. Assim, ele a pediu em namoro.
Depois de troca de olhares, um misto de vergonha e
curiosidade tomava conta dos dois. Ela,
cochichando com as amigas e todas a olharem
para ele, talvez opinando democráticamente,
talvez analizando a situação e a atitude
que ela deveria tomar a seu respeito. Então,
veio a resposta: "Tá, eu aceito namorar com você."
E Ele pensou:

" E agora? O que um namorado faz? Ai, meu Deus!
.Vou até ela e beijo seu rosto?
Convido ela para a matinê do Cine Metro?
Se ela aceitar e minha mesada não der?
Ah! Eu vou pegar na mão dela, vou sim!!
Abraço ela e beijo ou só abraço?
E se eu abraçar e "ele" ficar grande?
E se ela ver "ele" grande? "

Dúvidas, dúvidas e mais dúvidas ante a mudança.
Agora ele tinha uma namorada e não decidia,
não resolvia, não sabia o que fazer...
---
A condição. Depois do "sim", foram para a praça
Saens Peña, sentaram em frente ao Bob's, deram
as mãos e planejaram o domingo: matinê no
Cine Metro e após o filme, um gostoso Milk-Shake.
Programa e hora marcada, a passos lentos a levou
para casa, (mas só até a esquina) e despediram-se com
um beijo... Pisando em nuvens ele foi para seu quarto
e naquela noite, mal conseguiu dormir de tão ansioso
que estava.


Domingo pela manhã não foi brincar
com os amigos por que tinha que se preparar
para o encontro à tarde. E aí o telefone tocou: era ela!
... " Com certeza vai desmarcar tudo!" ...
pensou ele. Mas não, ela confirmou que eles iriam
ao cinema, sim, mas com uma condição, para ele a pior
das condições: o pai dela só a deixaria ir depois de
conhecê-lo...


... "E agora? Acabo com tudo? O que eu faço?
Calma, tem ainda aquela brincadeira legal, a do Tarzan,
com a turma, lá naquelas árvores" ...
Mas quando se deu conta, já havia respondido:
... "Tá, amanhâ às duas da tarde tô lá na sua casa." ...

---
Os preparativos. Logo após o almoço começou
a vestir-se com o que achou melhor para o encontro:
sapatos da moda, calça "Lee" bem amarrotada, camisa
social branca com as mangas compridas bem
dobradas e uns dois números maior que o seu (!) e
para fora da calça (!), o topete do Elvis Presley,
o perfume e pronto! Lá foi ele. Mas parecia que
ia para a morte... apavorado. Dinheiro no bolso, zipper
da calça bem fechado e a droga da espinha bem
no nariz, só para atrapalhar.
---
O show. Chegou no horário marcado, parou na calçada,
fez a que talvez seria sua última oração e decidido,
abriu o pequeno portão dirigindo-se para a
varanda onde ficava o botão da campainha. Suando frio,
ouvia vozes e risadas no interior da casa. Paralisado
pensava que talvez estivessem falando dele, rindo
de sua enorme espinha no nariz. Corajosamente
esticou o dedo e tocou a campainha.

... "Sem volta: agora é enfrentar o pai dela." ...

Nervoso, muito nervoso, andava de um lado para o
outro na varanda quando alguma coisa
bateu em sua nuca, escorregou para dentro
de sua camisa pelo largo colarinho e grudou em
sua costa. Era gelada, grudenta e se mexia!
Tentando tirar a tal coisa da costa, girava sobre si e
talvez, eu disse talvez, gritasse. Talvez? Mas como não
conseguia alcançar a coisa, começou a desabotoar
rápidamente a camisa... Vocês já tentaram tirar uma
camisa social bem rápido, daquelas que tem pequenos
botões muito próximos uns dos outros?
E aos treze anos? Com uma coisa gelada nas costas?
---
O que aconteceu. Bem, na pressa, a camisa
foi rasgada aos pulos e berros. No chão, junto aos
"destroços sociais" a responsável por tudo:

uma imensa lagartixa !
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Mais um grande palavrão bem "cabeludo",
ofensivo à mãe da dita cuja, um desequilibrado chute
que não a atingiu e ele viu ...

A porta da sala, agora aberta, emoldurava um
pai boquiaberto, uma mãe tapando os ouvidos e uma
linda menina com os olhos arregalados, todos
horrorizados com a cena. Mudos. Paralisados.
Então, em meio ao silêncio reinante, ele pegou os
destroços de sua camisa preferida no chão,
tentou mais um chute na lagartixa, errou, olhou
para os três ainda estáticos e educadamente,
com a voz um tanto fina e trêmula, disse:

... "Boa tarde. Muito prazer. Tchau." ...

A retirada. Reunindo o que sobrou de sua dignidade,
deu meia volta e com passos firmes e decididos
atravessou o jardim em direção ao portão, indo para
casa trocar a camisa. A matinê ia começar logo e depois...

" Até que a brincadeira de Tarzan não é tão ruim.
Eu sou muito bom no grito. Só preciso procurar
uma menina que queira ser a Jane."
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autor: betomelodia

20/06/2007

Partes de Uma Vida - O Pato e o Trinta e Oito







betomelodia


Minas Gerais. Zona da Mata.
Divisa dos municípios de Bicas e Guarará,
onde está o Sítio do Pica Pau Amarelo.
Natureza exuberante em cinco alqueires mineiros:
ar e água puros, frutas em vários pomares,
verduras e legumes de uma imensa horta,
peixes em um lago formado por várias nascentes,
uma pequena granja fornecendo frangos e ovos,
queijo fresco e até café que plantado, colhido,
torrado elá mesmo moído, deixaram em sua memória
sabores inesquecíveis. Um bem cuidado gramado
impressionava quem pela estrada passava.
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A lida diária. Acordar ainda madrugada e fazer a inspeção
das cercas antes do alvorecer. Saudar o novo dia
com uma prece de agradecimento pela vida
Alimentar os cães (eram cinco pastores alemães),
frangos, peixes e os demais habitantes do lago,
os patos, gansos e cisnes, além dos perus
que tinham o enervante hábito de correr atrás
dele para bicá-lo. Irritantes, mas belos.
Ligar os sistemas de irrigação da horta e
dos pomares e pronto! Lá se foi a manhã.
Almoçar e após a merecida sesta, manter os
aceiros limpos, fazer as necessárias manutenções
e melhorias, etc., até o final da tarde. Mãos calejadas,
corpo suado, a certeza de ser parte de algo maravilhoso.
---
o lago e seus habitantes

O mistério. Houve uma época em que nem tudo corria bem.
Mas havia um problema lá na horta que ele não
conseguia resolver. As águas do lago iam até as
proximidades da cerca que as separavam da horta,
onde as verduras que
ali brotavam,
saciadas pela abundância do precioso líquido eram
imensas, apetitosas, causavam satisfação ao olhar. Mas,
estavam sendo arrancadas e comidas por
algum visitante noturno. Como, se altas e intactas
cercas protegiam toda a horta? Sem buracos ou tocas,
por onde entravam os famintos predadores?
Reforços nas telas, inspeção durante a noite, nada dava
indícios do vilão ou vilões. E na manhã seguinte,
canteiros revirados e verduras comidas, sem rastros,
sem qualquer pista dos intrusos.
---
A vigília. Resolveu ficar de tocaia. Uma noite sem dormir
para resolver o mistério. Rifle e binóculos em punho,
ficou posicionado com uma boa visão do local
dos canteiros que eram alvo dos visitantes.
Dormiu e até sonhou... que vigília...
Acordou com os cães lambendo seu rosto.
---
O vilão. Finalmente descoberto. Uma manhã, após o café
foi até o lugar onde os canteiros continuavam a serem
destruídos e resignado com a situação insolúvel,
começou os reparos nos mesmos. "... Qüé! ..."
Ouviu um pato! E bem ao seu lado, comendo com
voracidade as folhas das verduras, descaradamente!
Tirou o chapéu, coçou a cabeça e tomou uma decisão.
Foi rápido para casa, pensando: ..."Aquele pato escapou
do corte das asas que fiz outro dia, são todos iguais, uai,
mas vou dar um jeito nele pelos estragos que fez."...
Entrou rápido em casa, pegou o trinta e oito e gritou
para a mulher: ..."Prepara a panela que
vamos almoçar pato!... Desceu rápido para a horta.

o trinta e oito
---
O final. Chegou sorrateiro e foi ao encontro do pato.
O comilão nem se perturbou com sua presença,
continuando a arrancar e comer as verduras. Mas que
descarado! Apontou e ..."Bam!"... O pato ..."Qüé!"...
Errou ! De novo ..."Bam!"... E o pato ..."Qüé! Qüé!"...
E assim foram os cinco tiros. Errou todos e o danado
do pato a menos de um metro dele, nem se mexeu.
Colocou a arma na cintura, abaixou,
pegou o pato com calma, levou-o para casa onde cortou
as penas das duas, duas asas, por garantia.
Em seguida, sob o olhar intrigado da mulher, pegou
o pato e foi para o lago. Lá chegando fez alguns
carinhos na cabeça do pato e com cuidado colocou-o
na água. Final feliz. Resolveu o mistério,
errou todos os tiros, virou piada no lugar,
o pato não mais saiu do lago e
todos viveram felizes para sempre...
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o pato. salvo e regenerado !!!

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betomelodia

20/05/2007

Classificados Através da História IV



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Classificados
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Tripulantes.
Preciso para excursão marítima.
Jogo tudo nesta empreitada. Tentaremos provar que
se pode chegar à Índia viajando para o Oeste.
Se conseguirmos, seremos famosos.
Se não, a história nos esquecerá. Tratar com
Cristóvão Colombo.
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Telefone. Pouco usado. Prefixo 1.
Tratar com A. G. Bell.
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( Extraído de "Classificados Através da Historia" de Luis Fernando Ver!ssimo )

20/04/2007

Partes de Uma Vida - Cafifas







betomelodia


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Teve um dos melhores anos de sua infância, ao morar
no Engenho de Dentro, bairro de sua cidade natal,
Rio de Janeiro. uma maravilhosa cidade.
Lá, nos altos da rua Mário Caldellaro,
... será que é assim que se escreve?..., em um terreno
em aclive, havia uma bonita casa e os moradores eram
seus tios, duas primas e um primo.
Na parte alta do terreno, ao fundo, em uma edícula
assobradada, moravam "seu" José e "dona" Palmira,
um simpático casal de portugueses. Usavam os
tradicionais tamancos de madeira e ele até hoje
recorda os sons que emitiam ao andarem.
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Em sua lembrança, a edícula e seus moradores
eram saídos de um conto de fadas. Muitas folhagens
flôres e os dois que para ele pareciam duendes
ou elfos, sabe-se lá, impressionantes em seu
estranho modo de falar e suas mágicas
diferentes e divertidas.
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Ele, na maior parte de sua infância, que sempre morou com
parentes, afastado do convívio dos pais
e irmãs, sentia-se um banido, um proscrito.
Mas lá na casa de seus tios, lá nos altos de um outeiro,
viveu um ano em que soube o que era
ser amado, ser querido, fazer parte de uma família.

Sua Primas. A primogênita, sua parceira em aborrecer
a menorzinha. Planos bem bolados e que quase sempre
saíam errados e que com o choro da caçula, traziam
broncas e castigos aos dois. Seu primo, o mais novo
e hoje piloto da FAB era de colo e por isso,
intocável. Sorte dele ...
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O relógio. Tem que falar dele.
Um carrilhão de mesa que além de soar as horas e
os quarto de horas, fazia um tic-tac simples e
terrivelmente ... alto. Era movido à corda e ficava
sobre um móvel no canto da sala de estar onde ele
dormia em um sofá ... onde ele só dormia depois de abafar
seus sons com almofadas e cobertores.
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o relógio


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Sua Tia. Irmã mais nova de sua Mãe, era sua preferida.
Fala rápida e sempre de bom humor, tratava-o
como um filho até mesmo quando ele
fazia algo errado. Ajudou-o a entender a vida
explicando os "porques" e os "senões"do dia-a-dia.
Sábia, mostrou a ele como viver
bem, aceitando os revezes como simples
obstáculos a serem superados. Ele
guardou como herança, os seus ensinamentos.
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Seu Tio. Todos adorariam ter um Tio como aquele.
Justo, alegre, bom ouvinte e conselheiro, um verdadeiro
pai para um menino banido, companheiro nas brincadeiras
e mestre na arte de construir e empinar as ...
quadradas, pandorgas, papagaios, pipas ou também
conhecidas por um nome que o fazia rir muito: cafifa.
Era assim que seu tio passou a chama-lo quando
iam soltar ao vento as pipas no terraço sobre a garagem....
"Vamos, Cafifa! Vamos aproveitar o vento!
Vamos ver se essa vai voar! " ...
E saía correndo pela casaem direção
ao terraço, com ele pulando de alegria à sua volta.
E todas voaram.

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As cafifas. Eram criadas por seu tio como em
um passe de mágica. Varetas de bambu e papel de seda
transformavam-se em obras de arte voadoras
em cores e formatos incríveis: estrelas, círculos,
quadrados, retangulos, pássaros e muitas
outras formas. Causavam inveja aos meninos da
redondeza e eram atrações ao cortar os
ares ao sabor dos ventos.
Sempre subiam aos céus. Eram lindas preces
agradecendo o milagre de mais um belo dia.

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---as cafifas
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Lembranças. Caras lembranças, alegres e por
sua intensidade, nítidas em seu coração.
Seus Tios partiram, seu primo e primas constituíram
família em distantes lugares.
Mas embora distantes, permanecem vivos e
presentes em sua vida, em suas ... memórias.
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autoria do texto: betomelodia

20/03/2007

Partes de Uma Vida - Paraíso Perdido







betomelodia


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Creio que todos nós já sonhamos morar em um lugar
calmo, tranquilo, onde a Natureza fosse
predominante, fauna e flora exuberantes, mas com todos os
confortos de que a vida moderna nos brinda.
Então, vejam o que ele contou-me à respeito.
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o salto do rio piracicaba
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No final da década de sessenta conheceu Piracicaba,
bonita e pacata cidade do interior paulista, cortada pelo rio
homônimo, naqueles idos piscoso e caudaloso,
brindando a todos com a majestade de uma bela cachoeira
no centro da cidade, o Salto do Piracicaba.
Cartão postal da cidade, enche de orgulho os moradores
e de beleza os olhares admirados dos turistas.
Lá, ele conheceu aquela que até hoje
é sua amiga, cúmplice e companheira fiel.
Amor recíproco, à primeira vista,
mil planos para o futuro.
Mas a cidade que crescia urbanísticamente perdia
a qualidade de vida. Poluição, violência, drogas.
Ele queria paz. Um lugar onde com tranquilidade pudessem
constituir uma família.
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A decisão. Um primo. Fazendeiro em uma pequena cidade
no interior de Minas Gerais, Zona da Mata. Ali estava a chance
de viverem em paz junto à Natureza.
Ela, grávida, tecia planos dominada pela espectativa.
Ele, apenas ansioso.
E com a benção de sua sogra, partiu com
esposa e sonhos.
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A chegança. Manhã ensolarada. Na pequena cidade
foram o centro das atenções. Fazenda enorme
onde um tio muito querido, também lá morava. Instalaram-se.
Já no dia seguinte, começou a lida no campo....
"Por que acordar, até aos domingos, às cinco horas?"...
"São duas horas da manhã! Não podemos
seguir as trilhas das formigas lá no cafezal de dia?" ...
Com muitos "por que isso" e "por que aquilo", foi aprendendo
e gostou. Adaptou-se ao campo.
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A mudança. Mas eles precisavam de um lugar
só deles, para a família. Foi conhecer a cidade de Bicas,
onde procurou trabalho e moradia.
Alugou uma pequena casa. Conseguiu trabalho
como colocador de assoalhos, portas e janelas.
Eraum carpinteiro, um estranho em uma
estranha e maravilhosa terra.
Vida difícil.
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bicas, minas gerais
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O sítio. Filha nascida. despesas aumentando. Conhecidos
conversavam sobre um pequeno sítio cujo
proprietário precisaca de um caseiro. Sem uma palavra
(aprendeu com os mineiros), saiu de mansinho
e lá foi ter, onde com sua experiência na fazenda,
foi contratado. De volta para o campo.
Uma boa casa para morar, bom salário, um carro para suas
necessidades, pomares, horta, granja, frutas e flores
à vontade e um gramado incrível... um paraíso.
Estavam morando no Sítio do Pica-Pau Amarelo!
Era esse o nome do lugar.
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o sítio do pica-pau amarelo
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A perda. Mas a saudade batia forte em seu coração.
Sentia muita falta dos seus. Um telefonema e o convite.
"Voltem, pois temos tudo preparado para recebe-los.
Casa e emprego, designer em uma fábrica de
móveis em Campo Grande, Mato Grosso do Sul."
E partiram, dando as costas
ao sonho duramente conquistado.
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A realidade. Ao chegarem em Campo Grande,
viram que não havia casa nem emprego. Apenas
dois pequenos quartos, ainda no alicerce.I
lusões, nada mais. Até hoje ele não
consegue entender como puderam trocar o
paraíso pelo purgatório. Jurou nunca mais abandonar
seus sonhos, realizados ou não, por diáfanas promessas,
fossem feitas por quem quer que fosse.
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autor do texto: betomelodia

20/02/2007

Classificados Através da História III

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Classificados
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Cruzeiro.
Procuram-se casais para um cruzeiro de
40 dias e 40 noites. Ótima oportunidade para fazer
novas amizades, compartilhar alegre
vida a bordo e preservar a espécie.Trazer guarda-chuva.
Tratar com Noé.
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a arca
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Cavalo.
Troco por um reino.
Tratar com Ricardo III.
Inglaterra.
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presente de tróia
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(Extraído de O Classificado Através da História, de Luis Fernando Ver!ssimo)


20/01/2007

Partes de Uma Vida - As Nuvens







betomelodia
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Domingo à tarde, em casa, sózinho. Sua mulher
saiu para a caminhada diária. De um lado
para outro, sem nada ter a fazer, foi recolher
roupas no varal e ao levantar o olhar para o céu
de fim de tarde, viu nuvens esparsas
tingidas de rosa sobre o céu azul-esverdeado.
Juntamente com uma estranha vontade de chorar,
veio a gratidão por estar vivo, por uma vida plena.
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Base da serra de Teresópolis. Uma pequena cidade
chamada Guapimirim, banhada pelo rio homônimo, que
caudaloso despencava da serra.Um paraíso onde conheceu
a que sua namorada e a fonte de inspiração
de seus quinze anos, seria.
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o rio guapimirim, na serra
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Carnaval. Clube repleto e os foliões pulando
ao som da orquestra. Ela, rodando pelo salão,
ao passar por ele demonstrava interesse. Ele,
tímidamente correspondia e acompanhava seus
movimentos, os cabelos lindos e soltos
esvoaçando pelo salão. Medo de agir, de falar, medo
que ela desaparecesse como uma miragem,
uma ilusão do carnaval. Mas ela, aproximando-se
o fitou, bem de perto, divertida com a
expressão de espanto no rosto dele e disse: "Oi."
E ele, buscando coragem , respondeu:
"Oi. Posso pular com você?". A resposta dela
veio rápida: "Claro que pode. Vamos!". Deram-se as mãos
e ela o puxou para o meio do salão.

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Dançando, pulando, flutuando em êxtase ao lado dela
( mãos dadas! ), ele sentia o calor e o suor
de sua mão apertando firme a sua. Trocaram olhares
que aos poucos foram tornando-se
mais intensos e... a paixão tomou conta deles.
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Ele, morava em Parada Modêlo, próximo à Guapimirim.
Elas, sim, eram elas, em Magé, distante aproximadamente
quarenta quilômetros. Ida e volta de "maria fumaça"
para namorar. Na volta, vários trens perdidos e o retorno à pé.
Gêmeas, dançaram comigo pelo salão sem
que eu notasse a troca.
Eram igualmente lindas.
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a estação de trem de magé
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Meses de namoro, sonhos de amor em paisagens
de sonhos. Passeavam pelos mais belos recantos da região
e aos poucos exploravam sensações. regiôes
ainda inexploradas por eles em seus corpos.
Ela, vinte anos, ensinou-lhe caminhos para os
até então desconhecidos prazeres.
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Lembranças inesquecíveis como inesquecível foi a
separação. Repentinamente, sua família mudou para o
Rio de Janeiro. Ela, ficou em Magé.
Ele sentiu muito sua falta e essa ausência deixou uma
profunda ferida em seu jovem coração. O coração
daquele que apaixonado, teve separação dolorosa,
fica ferido, marcado. Uma chaga para cada desilusão.
Para sempre presente.
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Das muitas cartas que ele escreveu para ela,
lembra de um trecho em uma onde diz
" Estou sózinho. O céu está repleto de nuvens tingidas
por uma tonalidade rosa-choque ". Até hoje, ele
não consegue entender porque as nuvens coloridas
pelo pôr do sol trazem-na à lembrança.
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a lembrança
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autor do texto: betomelodia

20/12/2006

Partes de Uma Vida - O Bote e o Jacaré








betomelodia
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Manhã prometendo muito sol e calor.
Parada Modêlo, um estroncamento de estradas.
Uma rumo à Teresópolis, uma bela cidade serrana
e a outra, contornando a Baía de Guanabara levando
à região dos lagos ou à capital Fluminense, na época, Niterói.
Ele e seu amigo, moradores da pequena Modêlo,
como era chamada, estavam em férias escolares.
Precisavam fazer alguma coisa nova e diferente...
emocionante ...

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O rio. Guapimirim. Nascia nos altos da serra de Teresópolis, e descia entre pedras e cachoeiras. Deu nome à uma pequena cidade na base da serra, às suas margens. A estação ferroviária de Guapimirim era o local de troca das locomotivas, nas composiçõesdos trens com destino serra acima. Em uma região de flora e fauna exuberantes, dois meninos entediados tramavam uma aventura.
Precisavam urgente de ação.

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Uma Caçada. Grande idéia! É isso! Armas? Eles tinham espingardas. Caça? Em abundância. E a escolha, após muitas deliberações, ficou entre o "Gato Bracaiá", um pequeno e traiçoeiro felino da região e o já velho conhecido "Jacaré da Lagoa", habitante do pequeno pântano onde faziam suas pescarias diárias. Valentia? Tinham de sobra. Escolheram o jacaré. E o "grande safári" nas terras africanas em busca dos terríveis crocodilos assassinos", ufa!, começou a ser planejado e logo após, partíram.
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o temível habitante do pântano...


A lagoa. Margem esquerda do rio que nas cheias transbordava e formava um pequeno pântano. Muitos peixes, muitas pescarias. E o jacaré. Os dois saíram à cata de informações sobre como caçá-lo e as respostas daqui e dali, revelaram que as melhores horas para caçá-los, eram as da madrugada. Madrugada? Problema...

A partida. Tinham que fazer tudo escondido de seus pais. Eles jamais permitiriam a "expedição à Africa sem guia e carregadores", então, a velha mentira seria a solução: ele iria dormir na casa de seu amigo e seu amigo iria dormir em sua casa! Feito! Acertados horário e rota, arrumaram suas armas, munições, bússolas e partiram para o ponto de encontro. Mais ou menos vestidos à carater, formavam uma dupla estranha, mas invencível. Autênticos e destemidos caçadores.Fim de tarde. Tarde que prometia.

A chegada. Quase noite. Coração batendo mais forte. Feito de tronco, dois remos, lá estava o velho bote, aguardando. Colocaram as tralhas dentro dele, entraram e foram para o meio da lagoa, remando bem devagar para não assustar a caça. Foram para longe das margens e suas retorcidas e assustadoras árvores... Seu amigo remava e ele procurava o brilho dos olhos do jacaré com a lanterna. A lagoa tinha muitos troncos de árvores submersos pela cheia recente e aí ...

O "tunc...". O bote parou, balançando. O barulho veio do fundo. Imóveis. Depois de muito medo, sussurros: "O que foi isso? Jacaré?" ... "Acho que não. Tá tudo muito quieto." ... "O bote tá preso. Será que tá num tôco?" ... "Acho que tá. A lagoa tá muito cheia." ... "E agora? Nós estamos no meio da lagoa!" ... "É fácil: você entra na água e solta o bote do tôco. Eu ajudo com o remo." ... "Com jacaré eu não entro não! Vai você para a água!" ... "Eu não. Não era eu que tava remando" ... E assim ficaram muito tempo, culpando um ao outro, até que o cansaço, a fome e a sêde os venceu. Dormiram. E esqueceram de trazer, água, comida e agasalhos ...

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o "terrível pântano africano"


O resgate. A neblina fria escondia tudo ao redor. Ao longe, ruído de remos. Acordaram. Gritaram: "Estamos aqui! Ajuda a gente!". Uma voz pediu calma. O ruído dos remos foi ficando mais próximo e pela voz reconheceram seu salvador: "Seu" Joaquim! Amigo de seus pais! Surra e castigo na certa! "Qui qui oceis tão fazendu aqui tudu moiado i de madrugada?". Contaram o acontecido e ele perguntou: "Tá bão, mais purqui é qui oceis num foram prá casa?". Responderam o óbvio: "Com o bote preso não dá, né "Seu" Joaquim, tem o jacaré". Ele retrucou: " Mai oceis num tão presu não, tão encaiadu na praia. Vão logu prá casa, mininus."

Bem, talvez o vento... talvez a chuva na serra... talvez o jacaré ficou com pena deles... mas o fato é que realmente estavam encalhados próximos ao toco onde amarravam o bote. Seu Joaquim foi pescar. Eles, sem uma palavra, sem jacaré, com muita fome e frio, encharcados pela densa manita matinal, voltaram para casa. E o "safari" terminou em surras e castigos, além de serem a piada do lugar por muito tempo. O troféu pela caçada foi uma forte gripe que levou dias para passar. E a fauna local, suspirou aliviada.


o bote

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autor do texto: betomelodia

20/11/2006

Classificados Através da História II

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Classificados
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Sítio.
Vendo. Barbada. Ótima localização. Água à vontade.
Árvores frutíferas. Caça abundante.
Um Paraíso.
Antigos ocupantes despejados por questões morais.
Ideal para casal de mais idade.
Negócio de Pai para filhos.
Tratar com Deus.
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o paraíso
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Leão.
Oferece-se para shows, aniversários,
quermesses, etc. Fotogênico, boa voz, experiência
em cinema. Tem referências da MGM, para a qual trabalhou
até a aposentadoria compulsória.
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aposentado
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( Extraído de O Classificado Através da História, de Luis Fernando Veríssimo )

20/10/2006

Partes de Uma Vida - O Adeus que Ele Não Deu







beto melodia
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Foi em uma manhã chuvosa. Como de costume, às cinco e meia da manhã ele estava saindo para trabalhar. Sua esposa, fiel cúmplice e companheira o ajudava na lida diária, além dos afazeres normais como "dona de sua casa" e "dona de casa de seus sogros". Apesar de uma inquietante estranha sensação, parecia que o dia transcorreria normalmente.
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O celular. Toca, faltando quinze minutos para o final do trabalho matinal. Sete horas da manhã. Ele estava dirigindo. Sua irmã caçula começa a falar, dando ordens à sua esposa com seu já comum tom autoritário e arrogante: ..."e vá logo para casa pois acho que a mãe está mal e não posso ficar com ela porque tenho que trabalhar"... Ela nunca podia ficar com a mãe. Lembra bem, sua esposa repetindo as palavras de sua irmã para ele, enquanto ele dirigia. Palavras que parece terem sido gravadas à dor em sua mente.

sem hora ou lugar para boas ou más notícias __________________________________________________________

O retorno. Rápido. Apreensivo. A sensação de frio, que voltou. Ele já nem mais tinha tempo para lazer. Cuidava de sua mãe já há algum tempo. Aos oitenta e um anos, sua saúde estava muito debilitada. Suas três irmãs não tinham, segundo suas próprias palavras, "tempo, dinheiro e paciência" para tal. Nesses últimos dias, sua mãe enfraquecia à olhos vistos, parecendo os deixar aos poucos. Rápido, dirigia.
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Em casa. Na sala, seu pai assistindo televisão. No quarto, sobre a desarrumada cama, sua mãe. Gemidos fracos e olhinhos suplicantes. Sua esposa começou a rotina de cuidados com sua sogra. Notou então que, a situação era bem grave. O telefone. Mãos, corpo e pensamentos à tremer. Ambulâncias ocupadas. Os Bombeiros! Em cinco eternos minutos eles chegaram. E ela então ajudou-os a colocarem-na na ambulância. Ele, acovardado. Ele, petrificado ante a realidade. Sua esposa, já entrando na ambulância junto com sua sogra o acalmou dizendo: "vai dar tudo certo, venha logo com seu pai" e partiram. Mas ele tinha que trabalhar até as treze horas. Ele era essencial. Ele não podia deixar de ir.
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A partida. Na ambulância, a maca. Na maca, sua mãe. E ao seu lado na maca, segurando suas frágeis mãos, sua esposa pedia a ela: ..."fique comigo, não vá"... A resposta era um olhar cansado, olhar calmo de Mãe Velha, silenciosamente ouvindo a prece de sua nora: ..."Nossa Senhora, por favor cuide dela para mim"... Ela foi atendida. Sua esposa sentiu um leve aperto em sua mão e ela partiu. O adeus que ele deveria ter dado, com sua presença, acovardou-se no mais fundo recôndito de seu coração.
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o adeus que ele não deu
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autor do texto: betomelodia

20/09/2006

Partes de Uma Vida - Primeiro Amigo




betomelodia

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Como sempre, ele rolava a laranja para seu amigo, no piso da pequena varanda. Como sempre, seu amigo a rolava de volta para ele. Assim passavam as tardes nessa brincadeira inocente, a rir e conversar.

O apartamento. Ele morava com seus avós maternos no bairro da Tijuca, zona norte da cidade do Rio de Janeiro. Não lembra a rua mas sabe que o apartamento era térreo e próximo à uma praça. Pequeno, franzino e feliz. Protegido e querido por todos, tinha o que de melhor um menino de seis anos poderia ter: um amigo, que brincava, que contava coisas estranhas de um distante outro lugar, coisas que um dia os dois fariam.

As brigas. Por vezes, além de rolarem as laranjas um para o outro, rolavam também desentendimentos: muita fôrça, má pontaria, a falta de vontade de brincar ou devolver a laranja, eram motivos para brigas e choros que os avós, carinhosamente chamados de Pai Velho e Mãe Velha, apaziguavam com calma e ternura dizendo sempre: ..."não precisa
mais chorar, ele já foi embora " ... mas ele sabia que não era verdade porque seu amigo ficava lá,em um canto, rindo de seu choro.
O fim da amizade. Brincando os dois na varanda, certo dia ele viu seus pais, avós e outras pessoas que ele não conhecia, olhando para os dois com expressões estranhas. Ele achou normal porque eles eram rápidos e precisos na brincadeira e isso os deixava espantados. Eles só tinham seis anos ! Então, sua mãe correu até ele, o pegou no colo e tirando de suas mãos a laranja, a jogou longe, sem ao menos olhar para seu amigo que encolhido em seu canto ficou quieto, triste e sózinho. Em seguida sua mãe saiu correndo da varanda, chorando alto, com ele nos braços que não conseguia entender o que tinha acontecido, o que tinha feito de errado.



como explicar laços que unem dois... amigos?

A revelação. Não mais o deixaram ir à varanda. Não mais viu seu amigo. Ficou só. E logo, seus pais mudaram do apartamento de seus avós. Bem mais tarde, já adolescente, Mãe Velha revelou o misterioso segredo: naquela tarde, intrigados por seu riso mais alto e mais alegre que o costume, foram até a varanda ver o que estava acontecendo. Todos viam a laranja que ele rolava em direção à parede oposta, onde estava seu amigo! Todos viam que, antes de bater na parede, a laranja parava bruscamente, como se fosse segura por alguém! Todos viam que a laranja, após um pequeno impulso rolava rápidamente de volta para ele! Só não conseguiam ver seu amigo, Jorginho ...


a laranja

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criação de texto: betomelodia

20/08/2006

Classificados Através da História I

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Classificados
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Engenheiro
Precisa-se, urgente, para substituir
elemento demitido motivo embriaguês.
Tratar na Prefeitura de Pisa, Itália.

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Correspondência
Quero me corresponder com
qualquer pessoa em qualquer lugar.
Escrever para Robinson Crusoé, com urgência
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( Extraído de O Classificado Através da História, de Luis Fernando Veríssimo )

20/07/2006

Partes de Uma Vida - Solidão







betomelodia

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A tarde. Quente e vazia. Ao fundo, quebrando o silêncio,
o ruído de trânsito em uma
avenida próxima. Em seus
devaneios o tempo passa rápido e a
sensação de fome volta.
É hora de lanchar. Algo para fazer.

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A mesa. Tampo de mármore branco, com
manchas cinza-esverdeadas e seis cadeiras
à sua volta. O ritual de sempre.
A toalha de mesa, base de centenas de
refeições solitárias é estendida,
desbotada mas limpa, aguardando com
passiva serenidade sobre o frio mármore.
Ele não mais gosta de jantares.
Trazem lembranças do passado em família.

Os utensílios. Peças simples, velhas conhecidas.
A chícara de chá, o pires, vidro azul. A colher de chá,
as facas e o fatiador de queijo, todos com
já encardidos cabos plásticos.
Descanso de bambu para o bule, para que o calor
não estrague ainda mais a velha toalha.

O fogão. Antigo, mas eficiente em suas
funções de ferver a água, cozinhar,
fritar, assar, cozer e também queimar
velhos guardanapos e cansadas mãos.
Sobre uma das bocas do velho fogão, um também
velho e amassado bule de alumínio que, tal como
ele perdeu seus "cabelos", perdeu sua tampa.
Observando a água no ponto de fervura,
desliga o gás levando o bule à mesa.

o lanche da tarde

O lanche. Pão francês, margarina e um
pedaço de mussarela a ser fatiado.
Ao centro da toalha dois vidros:
o maior com o açúcar e o menor com o café solúvel.
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A solidão. Sentado à cabeceira, prepara seu café
e começaa comer, calma e pensativamente.
Olha à sua direita e vê as cadeiras vazias, tristes
e solitárias. Olha à sua esquerda e vê
as também solitárias, tristes e vazias cadeiras.
Mas ao olhar à sua frente, para a sexta cadeira, vê
como se em um espelho fosse, sua vida
passar lentamente, revelando os caminhos, os
desvios, os sonhos que não se
concretizaram e o condenaram à solidão.
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A lágrima. Solitária, triste e fria,
brota em seu olhar.
Mas ele é forte. Ele não a verte, silenciando-a em sua solidão.

a lágrima

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autor do texto: betomelodia

20/06/2006

Partes de Uma Vida - Primeira Lembrança





betonelodia

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Após cincoenta e sete anos ele recorda,
intrigado por ser esse o objeto de
sua primeira lembrança:
o balde de zinco e o som que ele fazia
ao ser movido pelo vento.
Mas qual a importância daquele balde?
Por que povoa sua primeira recordação?
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A cidade. Soube já adulto, Petrópolis.
Serrana e no Estado do Rio de Janeiro, foi
residência de verão do então Imperador Dom Pedro I
e berço do Pai da Aviação, Alberto Santos Dumont.
O local, não sabe mas em sua memória, uma pequena
e humilde casa em uma das encostas de um
estreito e apertado vale.

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O vento. Em constante movimento, sempre presente
em seus dias e noites. Ele recorda seus sons
ao dia e o toque em seu franzino corpo. Uma sensação fria.
Recorda seus sons à noite, acompanhados
de receios. Uma sensação de mêdo.

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o vento e a noite

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A noite. Fascínio. Fria e assustadora
para um menino de quatro anos,
trouxe certa vez um som diferente, desconhecido.
Talvez por ser novo em seu intrigante pequeno universo,
o som parecia imenso, aterrador e ele chorou...

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O balde. O uivo do vento assustava o balde, empurrando-o
encosta acima, empurrando-o encosta abaixo.
O balde chorava, talvez com frio, sua alça metálica
tremendo e batendo em seu também metálico corpo.
E o choro do balde fez o menino chorar mais forte.

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O Choro. Sózinho e amedrontado. Apenas quatro anos.
Ele não foi ouvido. Sua primeira de muitas noites insones. Sua
primeira noite de desamparo. Sua primeira noite de solidão.
Sua primeira lembrança.

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o balde

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autor do texto: betomelodia