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"A diligência avançava em alta velocidade, levantando nuvens de poeira. As três parelhas de fortes cavalos lutavam para manter distância dos bandidos na esperança de escapar com o ouro do banco. Mas ele, o chefe do bando, montado em seu negro puro-sangue já estava ao lado do cocheiro, pronto para saltar e tomar as rédeas das mãos do apavorado cocheiro. Os passageiros assustados, se encolhiam nos bancos."
" Não, já cansei dessa brincadeira.
Também já cansei de brincar de "índio",
de "piloto de avião", de "caçada na África",
de "guerra" e outras mais. Todas ficaram sem graça."
É, aos poucos a infância vai ficando para trás e novos sonhos, novos medos, novas ansiedades e novos "brinquedos" começam a ser desvendados e explorados.
" Será que minha calça tá legal?
E o meu cabelo? Tá bem penteado?
Será que ela olhou para mim? "
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Infância. Bons tempos aqueles em sua cidade natal,
Rio de Janeiro, lá no bairro da Tijuca.
Aquelas "peladas" nas tardes, tendo como campo a
Rua Delgado de Carvalho e como "gol's",
paralelepípedos... o cinema ao ar livre nas noites
quentes e estreladas... uma enorme tela de
lençóis em um edifício e o projetor em um outro, eram
divertidos encontros dos moradores.
Nas manhãs? Escola, lógico...
A brincadeira preferida dele e de todos os meninos
era a de andarem o mais rápido possível sobre os muros
que separavam os edifícios, brincadeira considerada
como prova de coragem e habilidade. Proezas que nunca
tiveram consequências mais graves que arranhões
e orgulhos feridos.
Houve um tempo de racionamento de energia elétrica,
com "black-out's" noturnos em rodízio por todos
os bairros. Quando o racionamento, que durava duas
horas era feito, nada havia a fazer. Mas na escuridão eles
tiveram uma grande idéia e a puseram em prática:
conseguiram algumas lanternas e palitos para dentes
em suas casas e assim que o corte começava,
ele e seus amigos se dirigiam aos edifícios e colocavam
palitos nos interruptores das campainhas,
os mantendo acionados. Quando a energia voltava,
era uma verdadeira "sinfonia".
Novos interesses. Chega um momento em que,como já disse acima, as brincadeiras começama perder a graça e a vontade de ter uma namoradadeixa de ser apenas uma vontade, se transformando emum forte desejo. Assim, ele a pediu em namoro.Depois de troca de olhares, um misto de vergonha ecuriosidade tomava conta dos dois. Ela,cochichando com as amigas e todas a olharempara ele, talvez opinando democráticamente,talvez analizando a situação e a atitudeque ela deveria tomar a seu respeito. Então,veio a resposta: "Tá, eu aceito namorar com você."E Ele pensou:" E agora? O que um namorado faz? Ai, meu Deus!
.Vou até ela e beijo seu rosto?
Convido ela para a matinê do Cine Metro?
Se ela aceitar e minha mesada não der?
Ah! Eu vou pegar na mão dela, vou sim!!
Abraço ela e beijo ou só abraço?
E se eu abraçar e "ele" ficar grande?
E se ela ver "ele" grande? "
Dúvidas, dúvidas e mais dúvidas ante a mudança.
Agora ele tinha uma namorada e não decidia,
não resolvia, não sabia o que fazer...
---A condição. Depois do "sim", foram para a praçaSaens Peña, sentaram em frente ao Bob's, deramas mãos e planejaram o domingo: matinê noCine Metro e após o filme, um gostoso Milk-Shake.Programa e hora marcada, a passos lentos a levoupara casa, (mas só até a esquina) e despediram-se comum beijo... Pisando em nuvens ele foi para seu quartoe naquela noite, mal conseguiu dormir de tão ansiosoque estava.
Domingo pela manhã não foi brincarcom os amigos por que tinha que se prepararpara o encontro à tarde. E aí o telefone tocou: era ela!... " Com certeza vai desmarcar tudo!" ...pensou ele. Mas não, ela confirmou que eles iriamao cinema, sim, mas com uma condição, para ele a piordas condições: o pai dela só a deixaria ir depois deconhecê-lo...
... "E agora? Acabo com tudo? O que eu faço?
Calma, tem ainda aquela brincadeira legal, a do Tarzan,
com a turma, lá naquelas árvores" ...
Mas quando se deu conta, já havia respondido:
... "Tá, amanhâ às duas da tarde tô lá na sua casa." ...
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Os preparativos. Logo após o almoço começou
a vestir-se com o que achou melhor para o encontro:
sapatos da moda, calça "Lee" bem amarrotada, camisa
social branca com as mangas compridas bem
dobradas e uns dois números maior que o seu (!) e
para fora da calça (!), o topete do Elvis Presley,
o perfume e pronto! Lá foi ele. Mas parecia que
ia para a morte... apavorado. Dinheiro no bolso, zipper
da calça bem fechado e a droga da espinha bem
no nariz, só para atrapalhar.
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O show. Chegou no horário marcado, parou na calçada,
fez a que talvez seria sua última oração e decidido,
abriu o pequeno portão dirigindo-se para a
varanda onde ficava o botão da campainha. Suando frio,
ouvia vozes e risadas no interior da casa. Paralisado
pensava que talvez estivessem falando dele, rindo
de sua enorme espinha no nariz. Corajosamente
esticou o dedo e tocou a campainha.
... "Sem volta: agora é enfrentar o pai dela." ...Nervoso, muito nervoso, andava de um lado para ooutro na varanda quando alguma coisabateu em sua nuca, escorregou para dentrode sua camisa pelo largo colarinho e grudou emsua costa. Era gelada, grudenta e se mexia!Tentando tirar a tal coisa da costa, girava sobre si etalvez, eu disse talvez, gritasse. Talvez? Mas como nãoconseguia alcançar a coisa, começou a desabotoarrápidamente a camisa... Vocês já tentaram tirar umacamisa social bem rápido, daquelas que tem pequenosbotões muito próximos uns dos outros?E aos treze anos? Com uma coisa gelada nas costas?---
O que aconteceu. Bem, na pressa, a camisafoi rasgada aos pulos e berros. No chão, junto aos"destroços sociais" a responsável por tudo:

uma imensa lagartixa !
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Mais um grande palavrão bem "cabeludo",
ofensivo à mãe da dita cuja, um desequilibrado chute
que não a atingiu e ele viu ...
A porta da sala, agora aberta, emoldurava um
pai boquiaberto, uma mãe tapando os ouvidos e uma
linda menina com os olhos arregalados, todos
horrorizados com a cena. Mudos. Paralisados.
Então, em meio ao silêncio reinante, ele pegou os
destroços de sua camisa preferida no chão,
tentou mais um chute na lagartixa, errou, olhou
para os três ainda estáticos e educadamente,
com a voz um tanto fina e trêmula, disse:
... "Boa tarde. Muito prazer. Tchau." ...
A retirada. Reunindo o que sobrou de sua dignidade,
deu meia volta e com passos firmes e decididos
atravessou o jardim em direção ao portão, indo para
casa trocar a camisa. A matinê ia começar logo e depois...
" Até que a brincadeira de Tarzan não é tão ruim.
Eu sou muito bom no grito. Só preciso procurar
uma menina que queira ser a Jane." __________________________________________________
autor: betomelodia